sábado, 19 de setembro de 2020

ficar ou deixar

Como é que algo que nasce tão bonito morre tão penosa e vagarosamente? Como é que nós morremos? Nós, que parecíamos tão certos, peças de encaixe. Um amor que estava escrito e destinado a começar, agora a morrer tão devagar.

Onde é que mudou? Onde é que comecei a duvidar se te amo ou se amo a ideia de te ter e de nos ter? Quero desesperadamente apanhar-nos do chão, limpar-nos, polir-nos, dar-nos uma nova vida. Mas sei que sou eu que pego na pá e nos escavo mais fundo, todos os dias a cada discussão - e são tantas e já tão naturais. É demasiado óbvio para mim que não crescemos a ter-nos. Talvez tenhamos mesmo encaixado, mas a cola que nos agarrou era fraca e insuficiente. 

Mas não te largo. Não consigo. A ideia de te deixar ir é tão penosa que dilacera, mas a ideia de continuarmos já não me traz qualquer alento. Dou por mim a fantasiar o que seria estar com alguém que não tu. Alguém que compreende-se, alguém que vivesse na mesma lingua que eu. Seria melhor? Ou estarei só a projectar uma fantasia que não me trará nada senão dor?

Não consigo perceber se o problema está em nós ou só em mim. Não sei se estamos destinados a encontrar felicidade com outro alguém - e a dor que vem só de te imaginar a abraçar outra que não eu - ou se isto é o melhor que encontramos, que encontro. Assombra-me o medo de acabar a compreender que afinal o problema fui sempre eu e eu apenas, que a minha essência é o que não me permite a felicidade e vai ser sempre igual daqui para a frente. Tenho tanto medo que o problema vá ser sempre eu e que não encontrarei encaixe melhor porque o defeito esteve sempre em mim. 

Não sei o que deva fazer e o desespero da não compreensão está a matar-me. Ficar ou deixar-te ir. Ficar ou deixar-nos ir.

Onde é que nos perdemos? Diz-me. Onde é que nos perdemos.

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