É engraçado, de uma forma assombrada e verdadeiramente perturbadora, como o meu inconsciente encontra sempre um desvio no meio que parecia ser a felicidade genuína para não me permitir vivê-la com a intensidade que mereço. Como o tudo estar bem me causa indiginação em vez de alívio e automaticamente inicio esta busca interior por algo que quebre os meus sorrisos e não me permita saborear ao máximo a minha recém encontrada felicidade.
Com ele, encontrei-a a ela. Algo com que me obcecar, com que sofrer, com que me inferiorizar. Não me podia nunca contentar com o ter alguém que me faz feliz, não me causa dúvidas ou inseguranças nem me demonstra nunca que não me quer. Que simples seria, agarrar-me ao bom que tenho sem procurar alguma dor imaginária capaz de me despedaçar?
Sinto uma insegurança extrema com ela que nunca antes senti por ninguém - e tão insegurança que eu sempre fui, durante tanto tempo. Quando olho para o espelho, sou suficiente; quando olho para ela, reduzo-me a nada. O meu corpo é mais flácido e cheio, o meu peito é menos redondo, as minhas pernas não conseguem ser tão alongadas, o meu cabelo já não é tão lustroso, o meu rosto... o meu rosto é incomparável de tão inferior que se releva a cada feição que vejo nela. Tantos anos passados a construir uma confiança que se revela por tantas vezes inabalável e tudo se me quebra nos pés com o passar de uma só foto.
Subitamente passo a desejar ardentemente nunca gravar com ele uma memória, porque nunca será tão bonita e digna de retrato. Tenho vergonha de pensar numa camâra apontada por ele a mim, eu sempre tão desajeitada e contrária à noção de fotogenia, ela a dominar a lente com uma naturalidade invejável. Tenho vergonha de me ver, porque me vejo mais pequena que ela, e só isso passa a importar. Pouco me interessa se tenho noção da minha inteligencia, das minhas conquistas, do quão fascinante pode ser aquilo que as vezes me passa pela cabeça. Nada disso importa mais, porque qualquer conquista dela é agora mais digna de valor que a minha - e a minha, que valia tanto há apenas uns minutos atrás! Eu saio todos os dias de casa na capital de uma das maiores nações do mundo, a caminho de uma instituição importante que me escolheu... mas ela segura um microfone e surge num ecrã e já é 10x o que eu sou.
É irracional, obcessivo, intenso e destuidor, e eu não consigo que pare. Quase 1 ano passado e arruina-me tanto como arruinou na primeira vez, faz-me sentir tão pequena como fez no primeiro dia. Consome os meus pensamentos demasiados dias e demasiadas noites, faz-me pesquisar o nome dela, ver as fotos dela vezes e vezes sem conta, procurar comentários dele e pensar "ele sabe. ele sabe que nunca serei assim". Quero que acabe. Quero tanto que acabe e não sei como.
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