Guardo tanto rancor por ti. Onde houve outrora um amor que borbulha para fora do corpo, há uma cólera que não acalma. Não te odeio, não tinha como o fazer. Como é que posso odiar alguém que se tornou parte de mim? Mas não consigo pensar em ti sem cerrar os punhos e ranger os dentes, sem querer gritar-te na cara tudo o que me fizeste, consciente ou inconscientemente.
Engraçado como já pouco penso em ti, mas estás em todos os meus sonhos - e são tantos. Sonho sempre com uma reconciliação, mas acordada não te quero mais na minha vida. Prefiro assim, passo mais tempo de olhos abertos e sem vontade de ti. Não sei ao certo o que podem esses sonhos significar, mas sei que me lembram a cada manhã que esta porta ainda está meio aberta e só a consigo fechar quando te vir. Mas como, se guardo tanto rancor por ti?
Anteontem pensei em ti antes de adormecer, admito. Caíram algumas lágrimas, as únicas desde há muito tempo. Imaginei a nossa conversa, como seria, como será, e dei por mim a gritar contigo dentro da própria cabeça. Disse-te que foste um fraco, que me magoaste exactamente onde sabias estar a ferida, que nunca me mereceste o sofrimento que passei por ti. Disse-te que te julgava alguém que não és, que inventei uma versão de ti que em dois anos não foste capaz de alcançar. Lembrei-te que te dei tudo o que conseguia e, em troca, me deste silêncio e desprezo.
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Ainda bem que te foste, pesavas-me mais do que podia aguentar. Sempre que passo pelo sítio onde travámos a conversa que ditou o nosso fim sorrio, a olhar para a versão de mim que dizia entre lágrimas que não ia conseguir sobreviver sem ti. Fico magoada com o quanto subestimei a minha capacidade de pegar em mim e ser invencível sozinha. A verdade é que eu já mal sobrevivia contigo.
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