As histórias do meu pai sempre constituíram o maior fascínio da minha vida.
Desde pequena que as oiço, umas ainda inesperadas, outras já gastas com a quantidade interminável de vezes que foram narradas mas, no fundo, todas elas únicas e deslumbrantes, ouvidas vezes sem conta sempre como se da primeira vez se tratasse.
Um dia, não há muito tempo e, ao mesmo tempo, já há tanto tempo atrás, suspirei e disse ao meu pai que sentia inveja. Uma inveja e uma tristeza que me corroiam por dentro porque eu não tinha e suspeitava que, na realidade, nunca iria ter histórias assim. Nunca iria ter esses momentos tão singulares e marcantes para um dia, num futuro distante, contar aos meus filhos nas nossas viagens de carro, nos nossos momentos. Essas loucuras, imprevisibilidades e alegrias não faziam parte do meu mundo rotineiro, estritamente organizado e planeado sem margem para aquele "algo mais" que faz toda a diferença.
Há dois dias atrás conversei com ele. Contei-lhe coisas, ocultei-lhe outras. Histórias foram ouvidas. Porém, eu não fui o receptor, fui o transmissor. Cada imprevisibilidade, loucura, alegria narradas saíram da minha boca, da minha voz estridente e feliz, de uma forma completamente inconsciente. Foi então que ele me disse, com aquilo que adivinho ter sido um sorriso nos lábios imperceptíveis de ver numa longa chamada telefónica: "Aí tens as tuas histórias. Aquelas que um dia me disseste que nunca terias para contar. Aquelas que invejavas e desejavas. Aí as tens, pois eu disse-te que o momento havia de chegar. E chegou".
E eu percebi que aqui as tenho. Que o momento havia de chegar e já chegou. Que tudo acontece, a seu tempo e horas, na altura certa em que tem de chegar.
"Só espero que as tuas histórias não comecem a ser grandes demais, loucas em excessso porque, para essas, já estive cá eu".
Quem sabe. Um dia, quem sabe.
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