Sei que não estou bem, que ando perdida, sem rumo, a vaguear por uma vida tanto ou mais desorganizada que a minha própria cabeça.
Também sei que nunca estive bem. Nunca me senti feliz, normal, integrada num mundo que parece tão simples e ordinário quando eu me revelo de uma complexidade até por mim incompreensível. Sou uma daquelas crianças dos filmes que se senta ao fundo do quarto, em posição fetal, e coloca a cabeça nos joelhos enquanto diz: "só quero ser igual a toda a gente".
E ninguém entende. Nunca ninguém percebe o emaranhado de ideias que está na tua cabeça. A depressão constante que cai sobre ti e te tenta derrubar a qualquer momento. As lágrimas e o rosto vazio que aparecem todas as noites em frente ao espelho. O sofrimento do passar dos dias. O aperto no peito por sermos quem somos, sem nunca deixarmos de o ser.
Às vezes dou por mim parada a olhar. Só a olhar. Durante minutos, horas. A pensar em tudo. Sem pensar em nada. E choro por dentro, aquelas lágrimas impossíveis de limpar que escorrem e caem num poço cujo fundo nunca se consegue alcançar. E não paro de descer, de deslizar por esse poço abaixo, desesperadamente à procura do fundo, do momento em que vou embater e tudo vai parar. E o fundo não chega, está cada vez mais pequeno, mais longe, mais inalcansável.
Sei que não estou bem. Também sei que nunca estive bem.
Agora, enquanto escrevo isto em plena madrugada, numa varanda escura, sentada numa cadeira molhada, com nada a não ser o som de uma musica que, ironicamente, repete vezes sem conta 'i love you because i know that you're dead inside', percebo que nunca vou ficar bem.
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